
“O amor não tem importância.
No tempo de você, criança,
uma simples gota de óleo
povoará o mundo por inoculação,
e o espasmo
(longo demais para ser feliz)
não mais dissolverá as nossas carnes.
Mas também a carne não tem importância.
E doer, gozar, o próprio cântico afinal é indiferente.
Quinhentos mil chineses mortos, trezentos corpos de namorados sobre a via férrea
e o trem que passa, como um discurso, irreparável:
tudo acontece, menina,
e não é importante, menina,
e nada fica nos teus olhos.
Também a vida é sem importância.
Os homens não me repetem
nem me prolongo até eles.
A vida é tênue, tênue.
O grito mais alto ainda é suspiro,
os oceanos, calaram-se há muito.
Em tua boca, menina,
ficou o gosto do leite?
ficará o gosto do álcool?
Os beijos não são importantes.
No teu tempo nem haverá beijos.
Os lábios serão metálicos,
civil, e mais nada, será o amor
dos indivíduos perdidos na massa
e só uma estrela
guardará o reflexo
do mundo esvaído
(aliás, sem importância)”
by Carlos Drummond Andrade
Aline Lima disse,
Março 13, 2008 às 11:46 am
Drummond sabia enxergar o mundo… bom saber enxergar Drummond….
Rev. Peterson Cekemp disse,
Maio 3, 2008 às 2:48 am
A última estrofe foi particularmente melhor… Não sei porque, mas não tenho muita conexão com poemas – só alguns. Esse só me “fisgou” na última esfrofe.
Inscrição na Areia « Palavras Sem Sentido disse,
Junho 18, 2008 às 1:59 pm
[...] O meu amor não tem importância nenhuma. [...]