Não entendo.
Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.
Entender é sempre limitado.
Mas não entender pode não ter fronteiras.
Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.
Não entender, do modo como falo, é um dom.
Não entender, mas não como um simples de espírito.
O bom é ser inteligente e não entender.
É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida.
É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice.
Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco.
Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.

by Clarice Lispector

Et, phone, home

O Amor…

mar2

O amor é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.

by Carlos Drummond de Andrade

Raphael e a praia

Uma visita e homenagem à Dai

Eu, ainda menina, levava os garotos da vizinhança para uma casa abandonada na minha rua. Eu era a professora e hoje, com muito orgulho, devo admitir que muitos experimentaram sexo pela primeira vez com essa aqui, que vos narra. Mas Raphael – por que com ph não sei. Parece alfabeto dos meus tempos. O Raphael era muito bonito e suas sungas…

E eu ficava sempre a olhar.
Apesar de ter 69 (sem piadinhas, por favor! Respeitem minhas rugas), o tempo me foi condescendente e, o amigo do Pitangui deu uma ajudazinha (meu bolso que o diga!), de forma que, mesmo velha, na gíria de hoje ‘ainda dou um caldo’.

Não que eu arrisque andar pelas praias de fio-dental (tenho ainda ‘sitocômetro’), mas um maiô preto-básico me cai bem.

Rafaelzito (ah, menino!) sempre passeia por Ipanema, de forma que resolvi ‘aquelas bandas assuntar’. As moçoilas de hoje em dia são muito tolas! Homens se conquistam pela cabeça (não propriamente a que enfeita os ombros) e pelo paladar!

Sabendo isso (a idade traz, ao menos, experiência), fui antes ao mercado e abasteci-me do melhor, para preparar o melhor da culinária rápida. Rapazes fortes precisam se alimentar 😉
Preparei, acondicionei e levei comigo para a praia. Sentei-me perto do quiosque, embaixo de um guarda-sol gigantesco.

Quando vi o rapazote passando, fingi-me desconhecê-lo, até que a educação do moço (aliada à fome que sentia), tal qual uma queda de braço, venceu-o e ele me cumprimentou:

– Olá, dona fulana…..

Inteligentemente, respondi, toda educada:

– Olá…dispenso o ‘dona’…quer se sentar?

E ele agradeceu. Claaaro que ofereci o alimento suculento, tencionando que ele desejasse, mais tarde, alimentar-se de outro modo:

– Quer um lanchinho, querido?

Ele, faminto, aceitou:

– Noooosssa! É o melhor lanche que comi em minha vida!

– Ah, isso não é nada, bondade sua!
[como sou dissimulada – até mesmo eu me surpreendi com a ‘jogada’ ?!?!?!]

Conversa vai, conversa vem…fingi profundo interesse com o esporte que ele praticava (surfe….coisa chata!) e ele se surpreendeu com a clareza e interesse que minhas palavras revelavam.

A tarde caiu, ele foi ao mar. Aproveitei e deitei-me de bruços, pois a paixão nacional ainda é a bunda! (salvo grande engano).

Quando voltou, percebi uma olhada de esguela, mas fingi-me de morta (tal qual o abutre, que quer alimentar-se do coveiro).

A noite estava chegando, quando nos despedimos (ah, não reclame! Claro que não foi de primeira! Todo projeto demanda tempo para ser consumado)

No próximo final de semana, repeti a dose. Repeti o interesse, repeti o jogo de sedução.

Aos poucos os olhares ávidos se tornaram mais constantes. E eu com olhar distante, fingindo nada perceber.

– Olha, a senhora me desculpe, mas a senhora ta bem bonitona!

– Imagine, mocinho…..deixe o ‘senhora para lá’.
[hahahahahahaha]

No próximo final de semana, novo ataque. Minha vontade de ferro venceria a pouca tenacidade adolescente.

Então pedi ao menino Rafael (um anjo!) que passasse bronzeador nas minhas costas. Ao que ele atendeu (bom moço!). Ofereci-me para fazer o mesmo, alegando que surfistas, por estarem expostos ao sol, precisavam de maior proteção. Ele aceitou e eu aproveitei!

Dois meses se passaram, neste ‘passa-passa’, até que minhas mãos tornaram-se mais ousadas (juro que contra minha vontade!). E, hora tocavam de leve, hora tocavam forte….deixando transparecer como seriam os demais toques.

O corpo jovem, ávido…não demorou a responder (senti-me tão lisonjeada, que fiquei enrubescida). Mas…vou até o fim nesta parada!

Então começamos a nos encontrar mais cedo, para ele poder me ajudar com o cesto de lanches: nos encontrávamos no elevador, até que um dia, ele estava lotado.

Ele me ‘se encaixou’, dando-me uma ‘encoxada’, e eu empinei o que ainda restava das elevações do glúteo. E ele gostou.

Fomos à praia, mais ‘passa-passa’, mais elogios à minha formosura (me engana, que eu gosto!).

Fim de praia, chegamos a uma construção. Fingi que ouvia um barulho e disse que era melhor que investigássemos (alguém poderia precisar de socorro)….

[Dai, minha querida, conceder-me-ia a honra de – com seu talento – continuar a estória?]

As quatro operações

Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil

by Clarice Lispector

Rendição

Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.

by Clarice Lispector

Eu já….

Já escondi um AMOR com medo de perdê-lo, já perdi um AMOR por escondê-lo.
Já segurei nas mãos de alguém por medo, já tive tanto medo, ao ponto de nem sentir minhas mãos.
Já expulsei pessoas que amava de minha vida, já me arrependi por isso.
Já passei noites chorando até pegar no sono, já fui dormir tão feliz, ao ponto de nem conseguir fechar os olhos.
Já acreditei em amores perfeitos, já descobri que eles não existem.
Já amei pessoas que me decepcionaram, já decepcionei pessoas que me amaram.
Já passei horas na frente do espelho tentando descobrir quem sou, já tive tanta certeza de mim, ao ponto de querer sumir.
Já menti e me arrependi depois, já falei a verdade e também me arrependi.
Já fingi não dar importância às pessoas que amava, para mais tarde chorar quieta em meu canto.
Já sorri chorando lágrimas de tristeza, já chorei de tanto rir.
Já acreditei em pessoas que não valiam a pena, já deixei de acreditar nas que realmente valiam.
Já tive crises de riso quando não podia.
Já quebrei pratos, copos e vasos, de raiva.
Já senti muita falta de alguém, mas nunca lhe disse.
Já gritei quando deveria calar, já calei quando deveria gritar.
Muitas vezes deixei de falar o que penso para agradar uns, outras vezes falei o que não pensava para magoar outros.
Já fingi ser o que não sou para agradar uns, já fingi ser o que não sou para desagradar outros.
Já contei piadas e mais piadas sem graça, apenas para ver um amigo feliz.
Já inventei histórias com final feliz para dar esperança a quem precisava.
Já sonhei demais, ao ponto de confundir com a realidade… Já tive medo do escuro, hoje no escuro “me acho, me agacho, fico ali”.
Já cai inúmeras vezes achando que não iria me reerguer, já me reergui inúmeras vezes achando que não cairia mais.
Já liguei para quem não queria apenas para não ligar para quem realmente queria.
Já corri atrás de um carro, por ele levar embora, quem eu amava.
Já chamei pela mamãe no meio da noite fugindo de um pesadelo. Mas ela não apareceu e foi um pesadelo maior ainda.
Já chamei pessoas próximas de “amigo” e descobri que não eram… Algumas pessoas nunca precisei chamar de nada e sempre foram e serão especiais para mim.
Não me dêem fórmulas certas, porque eu não espero acertar sempre.
Não me mostre o que esperam de mim, porque vou seguir meu coração!
Não me façam ser o que não sou, não me convidem a ser igual, porque sinceramente sou diferente!
Não sei amar pela metade, não sei viver de mentiras, não sei voar com os pés no chão.
Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra SEMPRE!
Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais amargas, das drogas mais poderosas, das idéias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes.
Tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos.
Você pode até me empurrar de um penhasco que vou dizer:
– E daí? EU ADORO VOAR!

by Clarice Lispector

<esse é procê, Aline!…e prá mim também! Acho que ambas fomos retratadas)

A Thousand Miles

…Andarei mil léguas com tua imagem no coração…”

Esse texto foi retirado do livro ‘O Gigante de Botas’.

Quando estava no primeiro grau, durante uma festa de caipirinha, um menino mandou-me esse ‘correio elegante’.

Achei lindo, mas era anônimo. Conhecia a origem do texto, posto que havia lido o livro. Apesar do anonimato, inferi quem poderia ser pois, enquanto a maior parte dos colegas ainda lia a série ‘Vaga-Lume’, somente eu e um garoto (do mesmo grau) estávamos lendo a série ‘Bom Livro’.

Naquela época, os empréstimos da biblioteca eram controlados por uns cartões. Fui até lá e vi quem havia emprestado o volume. Existiam somente 3 opções: eu mesma, um colega de minha classe e um outro aluno do colegial (que estudava à noite).

Mas eu queria a certeza e, como sempre fui curiosa ao extremo, tentei arrancar da mensageira do ‘correio-elegante’ o nome do autor. Pedi, implorei…ela resistiu bravamente..mas a bravura dela sobreviveu até que eu ameacei surrá-la (é, eu era ‘sangue-quente’ naquela época). Então ela me disse: Osório. Eu pensei: eu sabia!

Então…final feliz? Na-não. O primeiro grau terminou, mudei de escola, comecei a trabalhar, e nunca mais vi o menino (que hoje deve ser um homem), tampouco jamais consegui esquecer seu nome.

Mas nunca me esqueci da frase. Esta noite lembrei-me disso, pois há um Jovem Mancebo viajando algumas léguas para me encontrar. As emoções estão confusas, não consigo dormir, nem parar de pensar nele; resolvi escrever.

Segue abaixo uma música que tem tudo a ver com o contexto:

Original em inglês:

Making my way downtown
Walking fast
Faces passed
And I´m home bound
Staring blankly ahead
Just making my way
Making my way
Through the crowd

Now I need you
Now I miss you
And now I wonder….

(chorus)
If I could fall
Into the sky
Do you think time
Would pass me by
´Cause you know I´d walk
A thousand miles
If I could
Just see you…
Tonight

It’s always times like these
When I think of you
And I wonder
If you ever
Think of me
Cause everything´s so wrong
And I don´t belong
Living in your
Precious memories

Cause I need you
Now I miss you
And now I wonder….

(chorus)
If I could fall
Into the sky
Do you think time
Would pass me by
´Cause you know I´d walk
A thousand miles
If I could
Just see you…
Tonight

And I, I
Don’t want to let you know
I, I
Drown in your memory
I, I
Don’t want to let this go
I, I
Don’t….

Making my way downtown
Walking fast
Faces passed
And I’m home bound
Staring blankly ahead
Just making my way
Making my way
Through the crowd

Now I still need you
Now I still miss you
And now I wonder….

If I could fall
Into the sky
Do you think time
Would pass us by
Cause you know I´d walk
A thousand miles
If I could
Just see you…

If I could fall
Into the sky
Do you think time
Would pass me by
Cause you know I´d walk
A thousand miles

If I could
Just see you…
If I could
Just hold you
Tonight

Tradução:

Mil milhas

Percorrendo meu caminho para o centro da cidade
Andando rápido
Rostos passaram
E eu estou perto de casa

Sem expressão, olho para frente
Apenas percorrendo meu caminho
Percorrendo um caminho
Através da multidão

E eu preciso de você
E eu sinto sua falta
E agora eu me pergunto
Se eu caísse
No céu
Você acha que o tempo
Passaria para mim?
Pois você sabe que eu andaria
Mil milhas
Se eu apenas pudesse te ver… esta noite

É sempre em tempos como estes
Quando eu penso em você
E me pergunto
Se você ainda pensa em mim

Pois tudo está tão errado
E meu lugar não é
Vivendo
Em sua preciosa lembrança

Pois eu preciso de você
E eu sinto sua falta
E agora eu me pergunto
Se eu caísse
No céu
Você acha que o tempo
Passaria para mim?
Pois você sabe que eu andaria
Mil milhas
Se eu apenas pudesse te ver… esta noite

E eu, eu não quero que você saiba
Eu, eu me afogo em sua lembrança
Eu, eu não quero que isto acabe
Eu, eu não…

Percorrendo meu caminho para o centro da cidade
Andando rápido
Rostos passaram
E eu estou perto de casa

Sem expressão,olhando para frente
Apenas percorrendo meu caminho
Percorrendo um caminho
Através da multidão

E eu ainda preciso de você
E eu ainda sinto sua falta
E agora eu me pergunto
Se eu caísse
No céu
Você acha que o tempo
Passaria para nós?
Pois você sabe que eu andaria
Mil milhas
Se eu apenas pudesse te ver…

Se eu caísse
No céu
Você acha que o tempo
Passaria para mim?
pois você sabe que eu andaria
Mil milhas
Se eu apenas pudesse te ver…
Se eu apenas pudesse te abraçar… esta noite

Os brutos também amam

Os brutos também amam. Prova disso é o que eu encontrei entre os textos dos Cavaleiros do Apocalipse.

Vejam por si mesmos:

Da lavra de Monsieur Lealcy:

Pele:

Alvo alvo distante,
que minhas mãos não alcançam.
Linda seda, linda forma,
Linda em você!

Alva que se ilumina,
no calor da escuridão.
Posso ver-te em relevo,
quadro pintado pelas sombras.

Quero chegar mais perto,
sentir a textura ofengante.
Quero ver-te molhada,
nua, amargo desejo.

Nem o Sol que te castigas,
nem a Lua que te faz brilhar.
Doce morada minha, menina,
Porque não me convidas?

Da lavra do Cap.Nascimento do Ceticismo André:

Sinto falta:

Sinto falta de sua companhia…

Sinto falta dos dias em que fomos felizes e contentes,
Tranqüilos a andar abraçados por jardins e campos floridos.
Sua beleza me encantava os dias existentes;
Mas hoje me abandonaste, e não sei porque nem somos mais amigos.

Sinto falta de sua companhia…

Sinto falta do aroma que exalava de teus poros,
Do brilho radiante que lhe envolvia quando sorrias.
Sinto falta de teus carinhos tão amorosos;
Mas hoje, não existem mais tão belos dias.

Sinto falta de sua companhia…

Sinto falta do amor que por mim dizias ter,
Bem como o pulsar de nossos corações em uma só cadência.
Agora nada mais queres me dizer;
E maltrata-me, assim, com essa sua ausência.

Sinto falta de sua companhia…

Sinto falta dos olhares apaixonados que me dirigias,
Assim como suas carícias que traduziam a paixão.
Hoje por mim nada mais farias,
Além de deixar-me na mais profunda desolação.

Triste sina daquele que ama verdadeiramente;
Principalmente quando se é desprezado pela mulher, à quem um dia entregou seu coração.
O nome dela, mesmo tarde da noite, se recusa a deixar-lhe a mente,
Como se tivesse prazer em vê-lo na mais profunda solidão.

Continuo sentindo a sua falta…

E, da lavra do Jovem Bardo Revy:

Você:

O lugar que mais me faz sentir falta de você

É a minha sacada, de noite…

Vejo as palmeiras ao vento, os quintais de outras casas,

Mas você, onde está você?

O mar eu vejo um pouco,

O que mais vejo é o céu alaranjado

Me dá aquela saudade do que nem veio ainda,

Que Dinho Ouro Preto tanto conhecia

Eu encosto a cabeça na parede

Olho mais uma vez para a parte da estrada que a vista alcança

Mas você, onde está?

Por que diabos e caracinzas você não chega, onde é que você está?

Sou eu que não te enxergo ou eu que não quero te ver?

Grande que és e diferença que farás, não seria difícil de enxergar-te…

Será? Não seria, talvez quem sabe

Um detalhe que jogamos no chão concentrados no teto?

Éris, minha Éris…

Você me tira o sono, ao perguntar

E a você, cadê a você?

Por que você tanto espera a você?

Não sei, diga-me você

Melhor, diga-me, você!

Por que tanto te espero?

Onde é que estás escondida?

Se é que és, será que você existe?

Ou é apenas o limite da minha imaginação?

Que já há muito ultrapassou a linha desse mundinho pequeno…

Você, você.

Onde é que está você…

Primeiro motivo da Rosa

Vejo-te em seda e nácar,
e tão de orvalho trêmula, que penso ver, efêmera,
toda a Beleza em lágrimas
por ser bela e ser frágil.

Meus olhos te ofereço:
espelho para face
que terás, no meu verso,
quando, depois que passes,
jamais ninguém te esqueça.

Então, de seda e nácar,
toda de orvalho trêmula, serás eterna. E efêmero
o rosto meu, nas lágrimas
do teu orvalho… E frágil.

by Cecília Meireles

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